Quarta-feira, 19 de Agosto de 2026
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Moda penitenciária: roupas para visitar presos viram negócio e conteúdo nas redes sociais

Nicho reúne peças adaptadas às regras das prisões e criadoras de conteúdo mostram os looks

Por - Goiânia, GO
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Moda penitenciária: roupas para visitar presos viram negócio e conteúdo nas redes sociais Nicho reúne peças adaptadas às regras das prisões

Visitar um familiar ou companheiro em uma penitenciária exige mais do que disposição para enfrentar a rotina de espera e revista. Em muitas unidades prisionais, a roupa usada pelas visitantes também precisa seguir regras específicas, que podem envolver cores, comprimento, tecidos, bolsos e acessórios. O que começou como uma necessidade para conseguir passar pelos portões acabou criando um mercado próprio: a chamada “moda penitenciária”.

O segmento reúne lojas especializadas, conjuntos de roupas vendidos para o dia da visita e até conteúdo nas redes sociais. Mulheres que frequentam as prisões passaram a compartilhar os preparativos para esses encontros, incluindo a organização do chamado “jumbo”, conjunto de alimentos, produtos e outros itens autorizados para o detento, e a escolha do look.

Nesse universo, elas também são conhecidas como “cunhadas”, termo usado para mulheres que têm companheiros ou familiares presos e fazem parte da rotina de visitas ao sistema prisional.

A atividade, que antes ficava restrita ao ambiente das unidades, passou a movimentar negócios e seguidores na internet. Para algumas mulheres, a própria experiência de visitar alguém preso revelou uma oportunidade de renda.

Moda penitenciária: roupas para visitar presos viram negócio e conteúdo nas redes sociais Nicho reúne peças adaptadas às regras das prisões
Foto: Reprodução

Roupa que precisa passar pelo portão

A principal característica da moda penitenciária é também o que a diferencia de outros nichos de vestuário: não basta a peça ser bonita ou confortável; ela precisa ser aceita na entrada da unidade.

As regras variam de acordo com o presídio e podem estabelecer restrições sobre cores, modelos e detalhes das roupas. Em São Paulo, por exemplo, Vanessa Nogueira da Silva, 42 anos, que mantém uma loja especializada no segmento, explica que a legging preta não é permitida.

Também há unidades que exigem camisetas mais compridas. Conforme Vanessa explicou ao portal F5, em grande parte das cadeias as blusas precisam ficar abaixo do bumbum.

Por isso, leggings coloridas e camisetas compridas estão entre os principais produtos vendidos. No inverno, os moletons também ganham espaço, mas a combinação de legging e camiseta continua sendo o carro-chefe.

A variedade de cores e estampas, porém, mostra que a preocupação com as regras não eliminou o interesse das visitantes em se vestir bem. Pelo contrário. As combinações deram origem aos chamados “kits”, conjuntos escolhidos especialmente para o dia da visita.

“As cores fortes, combinando saem muito porque elas querem todas bonitas. As mãezinhas querem estar lindas, para o filho ver que elas estão fortes aqui fora”, afirma Vanessa.

De motorista de aplicativo a dona de loja

Vanessa conheceu esse mercado antes mesmo de trabalhar diretamente com ele. Na época em que era motorista de aplicativo, costumava levar mulheres até penitenciárias e percebeu a dificuldade que elas tinham para encontrar roupas adequadas às regras das unidades.

“Eu trabalhava de Uber, levava as meninas na penitenciária alguns dias. Aí eu comecei a ver que essas meninas vinham para cá e precisavam das roupas. Comecei a trazer uma coisinha, uma roupa, uma camiseta. Aí a coisa foi tomando proporção”, conta.

Ela começou comprando poucas peças e vendendo de maneira informal. Com o crescimento da procura, deixou o trabalho como motorista e passou a se dedicar à loja.

Hoje, segundo Vanessa, o negócio atende entre 250 e 300 visitantes por mês e vende cerca de 500 a 600 peças mensais, com envios para diferentes regiões do país.

Moda penitenciária: roupas para visitar presos viram negócio e conteúdo nas redes sociais Nicho reúne peças adaptadas às regras das prisões
Moda penitenciária: roupas para visitar presos viram negócio e conteúdo nas redes sociais – Foto: Reprodução

Negócio também virou consultoria

Outra empreendedora que encontrou na moda penitenciária uma fonte de renda foi Vitória Valter, 28 anos. Antes de entrar nesse mercado, ela trabalhava com venda de cosméticos.

A ideia surgiu quando começou a visitar o marido em uma unidade prisional e percebeu que as roupas disponíveis não atendiam ao estilo que gostaria de usar.

A loja de Vitória chegou, segundo ela, a faturar cerca de R$ 20 mil por mês. Além de vender as peças, o negócio passou a funcionar como uma espécie de consultoria para mulheres que têm dúvidas sobre o que pode ou não entrar em cada presídio.

“As pessoas perguntam para mim: ‘Você sabe qual roupa entra em tal presídio?’. Aí eu falo: ‘Ah, entra esse, esse e esse’. Aí eu envio para elas conforme a unidade que elas visitam”, explica.

Redes sociais transformam rotina em conteúdo

Enquanto as lojas criaram uma solução para a dificuldade de encontrar roupas adequadas, as redes sociais transformaram a rotina das visitas em conteúdo.

Uma das criadoras que passou a compartilhar essa experiência é Gabriela Gonçalves, 30 anos. Ela começou a produzir conteúdo há cerca de um ano e quatro meses, depois que o marido foi preso, no início de 2025.

Moradora do interior de São Paulo, Gabriela encontrou dificuldades para conseguir informações sobre as regras das visitas e para encontrar lojas especializadas. A partir da própria experiência, criou a página Cunhadas RC.

Kits visitas penitenciárias são comercializados para mulheres — Foto: Reprodução Redes Sociais

O perfil começou reunindo informações e produtos relacionados à rotina das visitas, como kits femininos e masculinos, lingerie, acessórios, bolsas e carrinhos para transportar o “jumbo”, quando autorizados.

Com o tempo, as dúvidas das seguidoras mostraram que havia espaço para um conteúdo mais amplo. A página passou a abordar também autoestima e a forma como as mulheres se preparam para o encontro com familiares e companheiros.

“Não é porque estamos vivendo um momento difícil que deixamos de ser mulheres e de querer nos sentir bonitas.”

A expansão desse conteúdo ajudou a colocar a chamada moda penitenciária em evidência nas redes sociais. Criadoras que vivem a rotina das visitas mostram combinações de roupas, explicam regras, compartilham os preparativos e, em alguns casos, recebem produtos de lojas para apresentar aos seguidores.

A preocupação com a exposição é importante porque o conteúdo envolve informações sobre unidades prisionais, visitantes e pessoas privadas de liberdade. Por isso, é preciso tomar cuidado para não revelar dados que possam identificar ou comprometer quem faz parte dessa rotina.

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