Gigante de vidro marcou a transformação de Goiânia
Prédio do antigo BEG, inaugurado em 1964, marcou a verticalização e a arquitetura moderna do Centro da capital. Conheça a história do gigante de vidro
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No encontro das avenidas Goiás e Anhanguera, um prédio atravessa mais de seis décadas acompanhando a transformação de Goiânia. A antiga sede do Banco do Estado de Goiás (BEG), diante da Praça do Bandeirante, surge em uma capital que começava a crescer para cima e incorporava novas linguagens à arquitetura.
O edifício aparece no momento em que a cidade deixava a escala predominantemente horizontal de suas primeiras décadas. Por isso, sua história ultrapassa a trajetória do banco que funcionou naquele endereço.
Projetado no início dos anos 1960 por Eurico Calixto de Godoi e Elder Rocha Lima, o edifício integra a consolidação da arquitetura moderna em Goiás. Estudos sobre a experiência da arquitetura moderna no Cerrado goiano colocam a produção desses profissionais dentro da transformação arquitetônica vivida pela capital naquele período. A implantação no encontro de duas das principais avenidas de Goiânia ampliava a presença do edifício na paisagem. Arquitetura, instituição financeira e expansão urbana se encontravam no mesmo endereço.
Antes do gigante de vidro havia outra Goiânia

Quando o BEG ganha sua sede definitiva, Goiânia ainda era uma capital jovem. A cidade construída a partir dos anos 1930 concentrava governo, comércio, hotéis e espaços de convivência em torno do núcleo planejado, com a Avenida Goiás exercendo papel central nessa organização. Na primeira fase da capital, a arquitetura Art Déco tornou-se uma das marcas da paisagem. Hoje, Goiânia possui um dos principais conjuntos Art Déco do país, com bens protegidos concentrados principalmente na região central.
Um dos símbolos daquela primeira Goiânia permanece na própria Avenida Goiás. Inaugurado em 1937, o Grande Hotel participou dos primeiros anos da construção social e cultural da capital, recebendo bailes, encontros políticos, autoridades e visitantes, como já mostrou o Mais Goiás. Era uma cidade que ainda construía sua identidade e consolidava o novo centro administrativo de Goiás. O BEG aparece algumas décadas depois, quando o desafio urbano já havia mudado.
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A comparação entre os dois edifícios ajuda a compreender essa passagem. O Grande Hotel pertence à Goiânia que estava nascendo, enquanto o BEG registra uma cidade que começava a assumir outra escala. Entre os dois momentos, a população cresce, a atividade econômica se diversifica e novas construções passam a disputar espaço no horizonte. Goiânia começa a olhar para cima.
O Centro começa a crescer para cima

Nas décadas de 1950 e 1960, a arquitetura moderna ganha espaço na capital. Concreto, vidro, linhas horizontais e novas soluções construtivas passam a dividir a paisagem com os edifícios das primeiras décadas. O antigo BEG aparece dentro desse processo e leva essa linguagem para uma das esquinas de maior circulação da cidade. O prédio se torna parte da mudança física e simbólica do Centro.
A verticalização avançaria nas décadas seguintes e produziria outros marcos. Em 1976, o Parthenon Center marcou outra etapa da transformação urbana de Goiânia, com 22 pavimentos e aproximadamente 46 mil metros quadrados de área construída, conforme mostrou o Mais Goiás. O complexo foi construído no terreno anteriormente ocupado pelo Mercado Central. Quando surgiu, a cidade já enfrentava outra dimensão de crescimento populacional e urbano.
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A comparação ajuda a estabelecer uma linha do tempo. O BEG aparece no começo dos anos 1960, quando a verticalização ainda transformava a escala do Centro. O Parthenon chega mais de uma década depois, quando Goiânia já era uma cidade maior e mais dependente de grandes estruturas. Os dois prédios representam momentos diferentes da mesma transformação.
O Parthenon também mostra como grandes edifícios acabam incorporados à memória coletiva. Décadas depois da inauguração, histórias e curiosidades continuam associadas ao complexo, incluindo a ausência da identificação do oitavo andar nos elevadores do Parthenon, tema já recuperado pelo Mais Goiás. A arquitetura deixa de ser apenas construção e passa a fazer parte das referências cotidianas da população. O mesmo fenômeno ocorre com a antiga sede do BEG.
Um endereço escolhido para ser visto
A localização ajuda a explicar o impacto do edifício. A sede foi construída diante da Praça Atílio Corrêa Lima, conhecida como Praça do Bandeirante, justamente no encontro das avenidas Goiás e Anhanguera. Não se tratava de uma região periférica ou de pouca circulação. O banco colocava sua principal sede em uma das vitrines urbanas da capital.
A Avenida Goiás carregava desde o planejamento inicial um papel estruturante. A Anhanguera consolidou-se como corredor de transporte, comércio e circulação entre diferentes regiões. O encontro dessas duas vias concentrava diariamente moradores, trabalhadores e consumidores. O endereço ajudava a comunicar a dimensão que o Banco do Estado pretendia ocupar.
A escolha também colocou o edifício dentro de uma sequência arquitetônica que ainda pode ser observada na região. Em poucos quilômetros, construções de diferentes décadas contam fases distintas da capital. A arquitetura funciona quase como uma linha do tempo construída. O BEG ocupa justamente o ponto de passagem entre a jovem Goiânia e a cidade que começa a se verticalizar.
Quem projetou o antigo BEG

Eurico Calixto de Godoi está entre os arquitetos associados à consolidação do modernismo em Goiás. A antiga Assembleia Legislativa de Goiás registra a sede do Banco do Estado entre os principais projetos de Eurico Godoi, desenvolvida em parceria com Elder Rocha Lima. A produção do arquiteto inclui ainda outros edifícios institucionais e públicos. Seu trabalho acompanha a transformação arquitetônica vivida por Goiânia a partir da metade do século XX.
Elder Rocha Lima integra a mesma geração de profissionais. Os arquitetos tiveram formação conectada ao ambiente no qual a arquitetura moderna brasileira se consolidava e posteriormente atuaram em uma capital ainda em formação. O BEG está entre as obras que materializam essa mudança. A sede bancária transforma referências arquitetônicas em presença concreta no coração da cidade.
Essa produção moderna não ficou restrita aos grandes edifícios. Ainda na década de 1950, Goiânia recebeu projetos residenciais relacionados ao movimento, como a casa projetada por David Libeskind na Avenida Paranaíba. O arquiteto projetaria posteriormente o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em São Paulo. A residência mostra que a linguagem moderna já começava a aparecer na capital antes da consolidação dos grandes edifícios institucionais.
O banco que cresceu junto com Goiás
O edifício não pode ser separado da instituição que lhe deu origem. De acordo com a história preservada pela Associação dos Funcionários Aposentados do Banco do Estado de Goiás, o BEG foi inaugurado em 18 de maio de 1955. Nove anos depois, em 18 de maio de 1964, o banco inaugurou sua nova sede na Praça do Bandeirante. O edifício tinha nove andares e ampliava a presença física da instituição na capital.
A mesma fonte registra que a construção recebeu sistema central de ar-condicionado, recurso ainda incomum em Goiás naquele período. A característica reforçava a imagem de modernidade associada à sede. O banco ocupava parte dos pavimentos e ampliava sua estrutura à medida que suas atividades cresciam. A arquitetura funcionava também como apresentação institucional.
Nas décadas seguintes, a sigla BEG passou a fazer parte da rotina econômica de Goiás. O banco ampliou sua presença pelo Estado e sua sede tornou-se uma referência no Centro de Goiânia. Para uma geração, o nome deixou de indicar somente uma instituição financeira. Passou também a identificar um prédio e um ponto da cidade.
Quando três letras viraram endereço
Alguns edifícios permanecem conhecidos pelo nome original mesmo depois que sua função muda. O BEG entra nessa categoria. A sigla que identificava o Banco do Estado de Goiás passou a funcionar também como referência geográfica. “Prédio do BEG” sobreviveu na memória urbana.
O fenômeno ocorre em outros endereços do Centro. O Grande Hotel continua carregando o nome recebido nos anos 1930 e o Parthenon Center mantém sua denominação desde a década de 1970. São prédios que ultrapassam a finalidade para a qual foram construídos. O nome passa a pertencer também à cidade.
A venda do BEG encerrou uma era
A trajetória da instituição muda no final do século XX. Depois da federalização e da preparação para a desestatização, o banco foi levado a leilão em dezembro de 2001. Segundo o histórico oficial das desestatizações mantido pelo BNDES, o Itaú adquiriu 84,46% do capital total do BEG por R$ 665 milhões. O preço mínimo estabelecido para a operação era de R$ 300,7 milhões.
O lance vencedor representou ágio de 121,14%. A operação encerrou uma etapa iniciada em 1955 com a criação do banco estadual. A marca desapareceria gradualmente do sistema financeiro. O edifício, entretanto, continuaria associado ao nome BEG na memória de Goiânia.
A diferença entre o tempo das instituições e o tempo da arquitetura ajuda a explicar essa permanência. Bancos são vendidos, empresas mudam de nome e estruturas administrativas desaparecem. Os edifícios podem atravessar todas essas mudanças. Alguns acabam transformados em documentos físicos de uma época.
Nem todo patrimônio moderno permaneceu de pé
O BEG também abre uma discussão sobre a preservação da arquitetura moderna em Goiânia. O reconhecimento do Art Déco é mais consolidado, mas construções das décadas seguintes também registram etapas fundamentais da formação urbana. Um episódio recente mostrou a fragilidade desse patrimônio. Em fevereiro de 2025, Goiânia perdeu a antiga sede da Celg, considerada um marco da arquitetura moderna.
O prédio da Celg havia sido construído entre 1956 e 1958 na Avenida Anhanguera. Depois de anos de degradação, a estrutura foi demolida apesar de manifestações em defesa de sua preservação. O episódio ampliou o debate sobre quais exemplares do modernismo goianiense devem ser protegidos. A memória arquitetônica da cidade não termina nos prédios de sua fundação.
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O antigo BEG pertence justamente a essa geração. Sua relevância não depende apenas da idade da construção, mas da transformação urbana que ela representa. O prédio ajuda a documentar a passagem entre diferentes linguagens arquitetônicas e diferentes escalas da capital. Preservar essa memória significa também compreender como Goiânia chegou à configuração atual.
O Centro deixou de concentrar tudo

Durante décadas, o Centro reuniu bancos, repartições, hotéis, cinemas, comércio, escritórios e serviços. A expansão de Goiânia criou novas centralidades e distribuiu essas atividades por diferentes regiões. O núcleo pioneiro perdeu parte da exclusividade econômica e administrativa que possuía. Grandes edifícios construídos para outra dinâmica urbana passaram a enfrentar novas realidades.
Esse processo ajuda a explicar por que a revitalização voltou ao centro do debate. Especialistas ouvidos pelo Mais Goiás defendem que a recuperação do Centro precisa integrar moradia, comércio, mobilidade, segurança, cultura e patrimônio. A proposta vai além de restaurar fachadas ou reformar praças. O objetivo é recuperar a função urbana da região.
A memória também aparece como parte dessa estratégia. Em outra reportagem, o Mais Goiás mostrou como a revitalização do Centro passa pela preservação da história de Goiânia. Edifícios, espaços públicos e referências culturais participam da construção do sentimento de pertencimento. O patrimônio deixa de ser apenas uma lembrança e passa a integrar o planejamento urbano.
Goiânia tenta levar moradores de volta ao Centro
Uma das principais iniciativas atuais é o Programa Morar no Centro. O Mais Goiás mostrou que a proposta pretende atrair milhares de moradores para a região central por meio de incentivos à habitação e utilização de imóveis. A estratégia busca aproveitar infraestrutura existente e aumentar a presença de pessoas fora do horário comercial. A habitação passa a ser tratada como parte da recuperação urbana.
Outros prédios da região começam a ganhar novas funções. Na Avenida Goiás, um imóvel que permaneceu anos sem utilização entrou em processo de retrofit para receber habitação. O Mais Goiás mostrou como um prédio da região central será convertido em moradia popular, em uma iniciativa que busca reutilizar estruturas existentes. O movimento mostra como construções de outras épocas podem ser incorporadas à cidade atual.
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O poder público também tenta devolver atividades administrativas ao Centro. O antigo prédio da Caixa Econômica Federal entrou nos planos de reocupação da região, com a perspectiva de utilização por órgãos estaduais, conforme noticiou o Mais Goiás. A estratégia pretende aumentar novamente a circulação diária de trabalhadores e usuários de serviços. O movimento contrasta com décadas de deslocamento de atividades para outras regiões.
Outros gigantes também procuram um novo lugar na cidade

O antigo Jóquei Clube é outro exemplo de como a arquitetura moderna entrou no debate sobre o futuro do Centro. O complexo projetado por Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro tornou-se objeto de uma disputa relacionada à desapropriação e nova destinação. O Mais Goiás acompanha o processo envolvendo o antigo Jóquei Clube e os planos para o imóvel. O caso reúne patrimônio, urbanismo, propriedade e requalificação.
A discussão aproxima edifícios construídos em diferentes momentos. BEG, Jóquei, Parthenon e outras estruturas nasceram quando Goiânia buscava representar modernidade e crescimento. Décadas depois, a cidade precisa decidir como essas construções participam de uma nova etapa urbana. O desafio deixa de ser construir a capital e passa a ser reutilizar aquilo que diferentes gerações deixaram.
O BEG já entrou no debate sobre imóveis ociosos
A antiga sede do banco também apareceu formalmente nessa discussão. Em 2018, durante audiência sobre imóveis públicos e privados ociosos, a Câmara Municipal de Goiânia citou o prédio do antigo BEG entre os exemplos apresentados. Na época, o Legislativo estimava que aproximadamente mil imóveis estavam ociosos na capital. O debate abordou conservação, fiscalização e alternativas para utilização dessas estruturas.
A informação se refere especificamente à situação discutida em 2018. O registro não permite afirmar, sozinho, qual é a condição de ocupação ou propriedade do edifício em agosto de 2026. Por isso, a situação atual precisa ser tratada a partir de documentação contemporânea. A passagem histórica, contudo, mostra que o prédio já integrou oficialmente o debate sobre aproveitamento dos grandes imóveis do Centro.
Uma cidade contada pelos prédios que deixou
É possível percorrer diferentes momentos de Goiânia observando alguns edifícios do Centro. O Grande Hotel pertence à capital que ainda construía sua identidade nos anos 1930. O BEG aparece quando a cidade começa a crescer verticalmente e incorporar a arquitetura moderna. O Parthenon Center representa uma Goiânia já maior e submetida a outra escala de ocupação.
Nenhum deles explica sozinho a formação da capital. Juntos, porém, mostram como as necessidades, tecnologias e ideias de modernidade mudaram ao longo das décadas. A arquitetura registra aquilo que cada geração considerava necessário para seu tempo. Os prédios transformam-se, assim, em documentos urbanos.
O BEG ocupa um ponto particular nessa cronologia. Ele não pertence à primeira Goiânia, mas também antecede os grandes complexos verticais que se multiplicariam posteriormente. Surge exatamente durante a passagem. É o prédio de uma capital que já estava construída, mas ainda buscava a escala da metrópole que se tornaria.
O gigante de vidro ficou
O banco que deu nome ao edifício deixou de existir como instituição controlada pelo Estado. Goiânia avançou em diferentes direções, novas centralidades apareceram e o Centro perdeu parte da concentração econômica que manteve durante décadas. As avenidas Goiás e Anhanguera também atravessaram sucessivas transformações. O prédio permaneceu associado à memória daquele período.
É essa permanência que transforma o antigo BEG em mais do que uma antiga sede bancária. O edifício registra a passagem da Goiânia das primeiras décadas para uma cidade verticalizada, a consolidação da arquitetura moderna e uma etapa da expansão econômica de Goiás. Também atravessa o posterior deslocamento de atividades do Centro e os atuais esforços para devolver moradores e funções à região.
No encontro das duas avenidas que atravessam a história da capital, o gigante de vidro permanece como testemunho de uma época. Sua trajetória reúne arquitetura, urbanismo, economia e memória em um único endereço. Contar a história do antigo BEG é também contar o momento em que Goiânia deixou de pensar apenas em construir uma nova capital. Foi quando a cidade começou a ganhar a escala da metrópole que viria a se tornar.