Empresário que fabrica instrumentos musicais em Goiânia fez 1ª guitarra com madeira de móveis da avó
Com produção de até 16 instrumentos por ano, empresário goiano conquistou clientes no Brasil e no exterior
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Proprietário de uma empresa que fabrica instrumentos musicais exclusivos em Goiânia, o mineiro Pablo Smiljanic, de 54 anos, fez sua primeira guitarra aos 13, com pedaços de madeira que encontrou de um móvel abandonado em um cômodo da casa da avó. Sem internet, cursos ou ajuda especializada, deu início a uma trajetória dedicada à fabricação artesanal de guitarras e baixos, que hoje são vendidos a artistas do sertanejo e do rock e levados a países como Estados Unidos, França e Japão.
Foi observando instrumentos em programas de televisão que Pablo começou a entender os detalhes por trás da produção das peças. Como a família não tinha condições financeiras de comprar uma guitarra, a solução foi tentar fazer uma em casa, assim como costumava fazer com os próprios brinquedos. Ao descobrir que os instrumentos eram feitos de madeira, teve a ideia de tentar construir um.
“Eu imaginei que, se eu arrumasse um pedaço de madeira, poderia desenhar naquela madeira e, depois de desenhar, poderia cortar e fazer uma guitarra. Eu fazia carrinho de rolimã, fazia arco e flecha, sempre gostei de construir as coisas. Sempre aprendi a me virar com aquilo que tinha nas mãos”, contou ao Mais Goiás.
A primeira guitarra não pôde ser utilizada. A segunda, feita a partir de adaptações que ele acreditava serem necessárias, também não deu certo. “Eu ia me baseando naquilo que via, copiava, fazia anotações e pegava aquilo para replicar. Os funcionamentos fui aprimorando com o tempo”, explica.
A terceira tentativa, por sua vez, despertou o interesse de um amigo, que comprou o instrumento. Com o dinheiro da venda, Pablo investiu na produção de outras peças.
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Gosto pela música falou mais alto que a medicina
Antes de transformar a fabricação de instrumentos musicais em profissão, Pablo morou em São Paulo e chegou a fazer um curso técnico na Santa Casa de Misericórdia de Barretos para atuar como instrumentador cirúrgico. Com muitos médicos na família, a expectativa era de que ele também seguisse carreira na área.
O gosto pela música, no entanto, falou mais alto. Mesmo enquanto se aproximava da medicina, Pablo montou uma banda e continuou se dedicando aos instrumentos. Ele toca guitarra, baixo, violão, viola, banjo country e violino, além de já ter passado por diferentes grupos musicais. Ao longo da trajetória, integrou bandas de rock, participou de covers dos Beatles e dos Ramones e tocou com a cantora Nalva Aguiar e o grupo As Mineirinhas.
Na década de 90, entrou para a banda Mississipi Country, onde permaneceu por quase 20 anos, também como vocalista. Com o grupo, fez duas turnês pelos Estados Unidos e percorreu praticamente todo o Brasil. A experiência reforçou sua ligação com a música e o desejo de fazer dela sua profissão.
Em determinado momento, decidiu deixar o caminho da medicina e voltar para Uberlândia (MG).
“Mesmo na tentativa de mudar de segmento, essa coisa da música já estava muito impressa no meu DNA. Eu já estava tocando em festivais e tudo mais. Até que chegou o momento em que agradeci ao meu tio e à minha tia e falei: ‘Olha, vou voltar para Uberlândia. Muito obrigado, mas isso não é o que eu quero'”, recorda.
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Mudança para Goiânia e construção da própria marca
Em 1992, Pablo mudou-se para Goiânia. Nos anos seguintes, investiu em materiais de melhor qualidade, madeiras selecionadas e componentes profissionais, elevando o padrão dos instrumentos que produzia. Entre o fim da década de 1990 e o início dos anos 2000, começou a estruturar a identidade da própria marca.
Conquistar espaço no mercado, no entanto, exigiu persistência. No início, os clientes comparavam seus produtos aos modelos de marcas tradicionais, como Fender e Gibson, e questionavam os preços.
A mudança ocorreu gradualmente, à medida que músicos começaram a comprar os instrumentos e a recomendá-los a outros profissionais. Para Pablo, a experiência de quem utiliza uma guitarra ou um baixo e reconhece sua qualidade tem mais força do que a publicidade feita pelo próprio fabricante.
“A maior propaganda é quando alguém pega um produto seu e leva, e uma pessoa neutra fala que o seu produto é bom”, afirma. A presença dos instrumentos em apresentações e programas de televisão também contribuiu para ampliar a visibilidade da marca.
A sigla SJ surgiu durante a busca por um nome que representasse seu trabalho. Inicialmente, Pablo tentou abreviar o sobrenome Smiljanic, mas não ficou satisfeito com o resultado. Ele queria que a marca tivesse um significado pessoal e espiritual.
Segundo o fabricante, a definição veio durante uma oração feita por um amigo em sua oficina, que funcionava em um barracão simples nos fundos da casa de uma tia. Na ocasião, ele relata ter sentido que recebia uma mensagem do Espírito Santo, que associava as iniciais SJ a “Senhor Jesus” e anunciava o crescimento de seu trabalho.
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Instrumentos chegaram a músicos conhecidos
Um dos primeiros momentos marcantes foi quando um baixo fabricado por ele apareceu na televisão com o músico que acompanhava o cantor Leonardo. Depois, os instrumentos chegaram a outros profissionais, incluindo músicos ligados à dupla Chitãozinho e Xororó e à banda Jota Quest.
O baixista PJ, do Jota Quest, conheceu o trabalho por meio de outro músico e, posteriormente, adquiriu mais instrumentos da marca.
Produção exclusiva de até 16 peças por ano
Atualmente, Pablo trabalha com uma produção reduzida, de aproximadamente 14 a 16 instrumentos por ano. Há cerca de sete anos, deixou de aceitar encomendas individuais e passou a organizar a fabricação em lotes semestrais, chamados por ele de grades. Em geral, são sete ou oito instrumentos por semestre, apresentados aos clientes antes do início da produção.
Os interessados podem reservar as peças antecipadamente. Os instrumentos que não são vendidos nessa etapa ficam disponíveis para pronta-entrega no showroom após a conclusão do lote.
A produção é praticamente toda realizada por Pablo, que prefere trabalhar sozinho. Ele descreve a oficina como um espaço de concentração, no qual pode acompanhar a transformação da madeira em instrumento musical sem interrupções.
“É um momento realmente mágico, em que estou vendo a madeira se transformar em um instrumento musical”, diz.
A marca possui modelos próprios e também produz versões inspiradas em desenhos clássicos, com alterações de acabamento e características estéticas. A personalização depende do estágio da fabricação. No início do processo, é possível escolher cores, pinturas especiais, componentes dourados ou cromados e detalhes do escudo. Mudanças estruturais, como as medidas do braço, geralmente não fazem parte das adaptações oferecidas.
Guitarras e baixos também conquistaram clientes no exterior
O alcance internacional começou a se ampliar por meio da internet e das redes sociais. Um dos clientes estrangeiros foi Kazuma Aoki, engenheiro civil de Tóquio, no Japão, que conheceu um baixo com iluminação de LED na escala e entrou em contato com o fabricante. A partir da negociação, adquiriu um instrumento.
Outros compradores chegaram por meio do Instagram, de indicações pessoais e de brasileiros que vivem no exterior.
Além do Japão, os instrumentos SJ chegaram a clientes nos Estados Unidos e na França. Para Pablo, as redes sociais reduziram as distâncias e permitiram que pessoas de diferentes países conhecessem o trabalho. Ainda assim, vender para o exterior exige construir uma relação de confiança, já que muitos compradores não têm a oportunidade de visitar pessoalmente a oficina antes de fechar negócio.

Primeiro braço de guitarra está exposto no showroom
Ao recordar o início da carreira, o fabricante vê na decisão tomada ainda na adolescência o ponto de partida de tudo o que construiu. A guitarra feita com madeira reaproveitada, que permaneceu guardada por muitos anos, foi reencontrada quando ele voltou a Uberlândia para buscar a mãe, já idosa.
Hoje, o primeiro braço de guitarra que construiu está exposto no showroom da empresa, como registro material de sua história.
Para Pablo, a trajetória é também uma confirmação de que valeu a pena insistir no próprio caminho, mesmo diante das dúvidas sobre o futuro. Ao imaginar o que diria ao menino que começou a construir instrumentos aos 13 anos, ele resume: “Parabéns por ter persistido”.